Perto de completar seis meses à frente do MEC, Abraham Weintraub conseguiu uma marca difícil de explicar para um ministro da Educação: não fez nenhuma visita a universidade ou instituto federal. É o que indica a agenda oficial do ministro no site do MEC desde 9 de abril, quando assumiu o cargo.

Também não existe notícia de que seu antecessor, Ricardo Vélez Rodriguez, tenha comparecido a algum campus federal. O fato de Vélez ter durado pouco mais de três meses como primeiro ministro do MEC do governo Bolsonaro até poderia ser uma desculpa. Mas insuficiente.
Cid Gomes foi ministro da Educação de Dilma Rousseff de 1º de janeiro de 2015 a 18 de março do mesmo ano. Menos de três meses, portanto. No período, visitou a UFRJ, a Federal do Pará, a Unifesp, a UnB e os institutos federais de São Paulo, do Pará e do Rio de Janeiro, entre outros campi, em rápido levantamento feito pela reportagem.


A impopularidade do presidente Bolsonaro junto à comunidade acadêmica e o receio com protestos também poderiam servir como argumento. Mas situação semelhante não impediu que os ex-ministros Mendonça Filho (maio de 2016 a abril de 2018) e Rossieli Soares (abril de 2018 a dezembro de 2018) do governo Temer visitassem universidades e institutos – mesmo que em encontros mais restritos com as reitorias.
É verdade que o ministro tem se reunido com os dirigentes universitários em seu gabinete no MEC. Mas os gestores observam que as visitas são importantes para esclarecer algumas críticas infundadas de Weintraub. Em recente entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o ministro voltou a dizer que as universidades são caras e desperdiçam muito dinheiro com atividades não relacionadas à Educação ou à Ciência: “Vamos dar uma volta em alguns campus (sic) por aí? Tem cracolândia. Estamos em situação fiscal difícil e onde tiver balbúrdia vamos para cima”, diz um trecho.
Uma fonte ligada à administração da UnB diz que Weintraub já foi pessoalmente convidado a conhecer a instituição pela reitora Márcia Abrahão, por exemplo. “É importante para ele conhecer a realidade, o que fazemos de bom e nossas dificuldades”. E completa: “A UnB é muito perto do MEC. O ministro levaria dez minutos de carro, no máximo”.
Tempo não parece ser um problema para o titular do MEC. O ministro é conhecido por ficar longos períodos ao celular, principalmente tuitando. Weintraub ingressou no twitter em 24 de abril e, desde então, publicou 1.578 posts na rede social. O que dá uma média de 10,3 publicações por dia. Em muitas delas, o ministro toca gaita.
Outra demonstração de tempo livre é a participação em cerimônias que não têm relação com a missão do ministério. Em 18 de julho, foi a uma formatura da PM do Distrito Federal. Em 6 de agosto, Weintraub esteve no sétimo aniversário do Colégio Militar Tiradentes de Brasília. Em 5 de setembro, compareceu a uma formatura comemorativa dos 184 anos da PM do Mato Grosso. De acordo com decreto presidencial nº 9.665 de janeiro deste ano, o ensino militar não é área de competência do MEC.

FURO COM A ANDIFES
Weintraub, até hoje, também não visitou a sede da associação nacional dos reitores das instituições federais (Andifes). Apenas recebeu a associação em seu gabinete. “Já convidamos. A Andifes está sempre aberta ao diálogo. Então sempre que qualquer ministro desejar, estamos de portas abertas”, afirma o secretário-executivo Gustavo Balduíno.
Questionada pela reportagem, a assessoria do MEC respondeu que “a agenda do ministro é pública e apresenta todos os compromissos desde que ele tomou posse”. O ministério não informou se há planos de visita a alguma universidade federal nem o motivo pelo qual o ministro não compareceu a nenhum campus. Também não foi justificada a presença em eventos fora da competência do MEC.

“Todo mundo quer uma bolsinha”

O desprezo pela pesquisa e o desconhecimento da realidade das universidades se destacam na entrevista que o ministro Abraham Weintraub concedeu ao Estado de S. Paulo, na segunda (23). Ao jornal, o titular do MEC anunciou que as instituições que aderirem ao Future-se passarão a contratar professores e técnicos pelo regime celetista.
Questionado se os recursos recém-liberados para financiar bolsas da Capes seriam suficientes, Weintraub disparou uma resposta desrespeitosa com os pesquisadores: “Todo mundo quer uma bolsinha. No Brasil, todo mundo acha que o dinheiro cai do céu”.
Sobre a crise orçamentária em várias instituições, Weintraub desafiou a reportagem a citar um caso de falta de recurso. Como se as instituições não estivessem em atraso com contas de empresas e concessionárias.

No Senado, reitores voltam a criticar Future-se

O programa Future-se foi duramente criticado por reitores de diversas universidades federais em audiência pública realizada pela Comissão de Educação do Senado, no dia 17.
A reitora da Universidade de Brasília, Márcia Abrahão, apontou a falta de clareza com relação a vários pontos da minuta enviada pelo MEC às universidades. Entre os pontos, citou a dispensa de chamamento público para a adesão aos contratos de gestão, a falta de informações sobre o comitê gestor do programa e a previsão de que metas e indicadores de governança serão estabelecidos depois, por “ato do ministro da Educação”. Ressaltou ainda que a minuta não aborda o financiamento público das instituições federais de educação superior.
Para a reitora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Wanda Hoffmann, o projeto pode trazer vantagens, mas há riscos relevantes, como a ameaça à autonomia universitária. Outra preocupação apontada pela reitora é que a adesão diminua ainda mais os recursos públicos destinados às instituições.
Durante a reunião, a reitora da UFRJ, Denise Pires de Carvalho, criticou o Future-se e defendeu a aprovação da PEC nº24/2019, em análise na Câmara dos Deputados. O texto propõe excluir dos limites das despesas primárias de cada instituição aquelas que são financiadas por receita própria, de convênios ou doações. Hoje, os recursos próprios gerados pelas universidades não são revertidos integralmente para seus orçamentos. (Fonte: Agência Senado)

Kelvin Melo

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